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Observar - Ler - Sentir - Ouvir - Refletir

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07.Mar.20

Ser Escritor é Cool | 3.º Desafio | Trabalhos pontuados - Ensino secundário

Divulga-se o trabalho pontuado neste terceiro desafio, da autoria de Bernardo Correia, da Escola Secundária de Ponte de Sor.

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Se preferir oiça o podcast.


ENTREVISTA | BERNARDO CORREIA


“O sonho comanda a vida”, e que o diga Carlos Bernardo, autor do blogue e agora espaço físico “O meu escritório é lá fora”.

Inspirado ou não por uma das máximas pessoanas “tudo vale a pena se a alma não é pequena”, o que é facto é que o autor do blog vencedor do prémio “Blog de Viagens Mais Popular” pela Feira Internacional do Turismo em Madrid, em 2017 e 2019, nos dá a mostrar o seu mundo simplesmente através da sua caneta e da sua lente.

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Maioritariamente absorvido pelo tema de viagens, este projeto não faz do seu papel algo fugaz ou superficial, pretendendo ir mais longe e, através de uma forma absorvente e sentida, contar histórias que nunca foram contadas e mostrar lugares nunca antes vistos. Bom dia, Carlos.

 

Se a tua vida fosse uma viagem, como a contarias e o que terias a aprender com ela?

Essa pergunta é demasiado filosófica (risos). Isso é um bocadinho também a razão de ser isto tudo, ou seja, “O meu escritório é lá fora” é como se fosse uma espécie de universo paralelo que eu tenho, que segue na viagem da minha vida... e como sou também meio romântico em quase tudo o que faço, acaba por ser também essa a consequência.

Hoje, “O meu escritório é lá fora” enquanto projeto, nem tanto enquanto blogue porque blogue é talvez a parte mais conhecida, é uma coisa talvez até demasiado abstrata para ser definida em palavras. Contudo, atualmente as coisas acabam já por se confundir: o que é que é a minha vida e o que é que é “O meu escritório é lá fora”.

É claro que tenho algumas distâncias, nomeadamente no blog com a parte mais íntima, isto é, há aqui uma pequena cota-parte que é revelada mas que não o faz um diário sem filtros. Aliás, desde o início este projeto teve esse propósito, pois “O meu escritório é lá fora”, o próprio nome, conta um pouco da história: a minha formação foi Engenharia Civil e eu não queria ser de todo engenheiro; foi o meu caso que a Vida me levou a seguir.

A dada altura, dei o chamado “Grito de Ipiranga” e resolvi, literalmente, fugir daquilo que era engenharia, do que era um escritório lá dentro e do que iria ser muito aborrecido, porque uma coisa que eu nunca me permiti foi ser infeliz e eu não me via de todo a viver toda a minha vida a fazer uma coisa que eu não gostava. Portanto, levei isso tão a sério que nem sequer comecei,ou seja, criei “O meu escritório é lá fora” como um projeto que é, acima de tudo, uma folha em branco que me permite criar, inventar e ter liberdade.

 

Passando agora da viagem da Vida para as viagens no âmbito do “Meu Escritório é Lá fora”, de que forma é que a tua primeira viagem se converteu no sonho que, atualmente, comanda a tua vida?

A primeira viagem de “O meu escritório é lá fora”, que foi a primeira história de todas, foi e será sempre a mais importante... e é a mais simples de todas, em termos de tudo: de processo, de investimento, por aí fora.

Às vezes, nós associamos muito esta coisa das viagens a ir para o sítio mais longínquo que existe e viver com a cultura mais distante da nossa como algo excecional, e eu, até certa parte, concordo com isso e adoro isso. Quer dizer, já vivi experiências muito, muito interessantes com essa perspetiva linear da viagem, mas essa viagem foi simplesmente sair de casa de bicicleta num dia de manhã e sem destino.

Depois, acabei por chegar, uma semana depois, a Vila Real de Santo António. Quer dizer, não é de todo o sítio normal de uma viagem grande, mas o que é facto é que essa viagem me deu muitas coisas e sobretudo, mais uma vez, num lado completamente romântico acabei por nessa viagem mais do que descobrir alguma coisa ou uma cultura diferente, acabei por me descobrir a mim.

Numa perspetiva muito mais filosófica descobri imensas coisas e, ainda hoje, recordo essa viagem com aquela nostalgia boa de algo muito importante. Isto é, há tantos dias nas nossas vidas que nós não nos lembramos de nada, que simplesmente passam e que são provavelmente a maior parte, pelo que desses dias lembro-me de cheiros, de conversas pequeninas e foi realmente muito importante.

E será sempre... até posso amanhã partir numa volta ao mundo que dura 10 anos e provavelmente essa pequena viagem, muito simples, vai ser sempre a mais importante.

 

Após uma viagem de bicicleta até ao Algarve, partindo de Abrantes, a tua cidade-natal, começas a escrever, a tirar as tuas fotografias e a escrever o teu diário de viagens. Hoje, o blogue passou do digital para o físico, estando o seu espaço físico localizado no coração de Abrantes. Este facto deve-se ao teu coração aí também se encontrar?

Sim. Este projeto, ou seja, passar para um espaço físico e com aquilo que tenho (que é muito mais que um escritório), sendo este um espaço aberto para as pessoas onde temos uma agenda cultural e por aí fora, é para já, primeiro que tudo, o porquê deste espaço para além de uma necessidade física do projeto estar a crescer, ter a necessidade de ter gente a trabalhar comigo, assim como possibilitar reuniões com clientes.

Por outro lado, é pelo simples facto de eu já não conseguir trabalhar em casa e querer distanciar em casa realmente aquilo que é a família e o tempo no trabalho, que já se estavam a misturar, assim como ter a capacidade de mostrar este projeto que, por ser diferente, não ia fazer sentido, pelo menos para mim, ser num escritório dito normal.

Depois, só faz sentido ser em Abrantes porque sou muito, muito ligado à minha terra, ou seja, muitas vezes digo e com muita verdade que gosto tanto de regressar, como de ir. Adoro viajar, adoro viver coisas diferentes... mas também adoro voltar, não só para voltar para os meus mas também com aquela perspetiva de contar a história. Isto é, gosto muito de viver a história mastambém gosto muito do “pós”: do contar, do recordar... e isso só faz sentido aqui.

 

O escritório é, então, onde as ideias passam para o plano concreto, onde se fazem os contactos, se criam as agendas, se escrevem as histórias e planeiam-se as viagens. Já no espaço da sala é onde acontecem workshops e conversas, exposições ou pequenos concertos. Que tipo de pessoas podemos esperar nos eventos da sala do “Meu Escritório é Lá Fora”?

Este conceito, principalmente a agenda de conversas, que é de todos os eventos aquele que acontece com mais regularidade e provavelmente o mais importante para mim, é sobretudo para trazer inspiração, ou seja, trazer bons exemplos. Como podem ver na programação da agenda, nem há um critério definido: não é viagens, não é música, etc.; são coisas que eu gosto.

É trazer um pouco de mim e as pessoas que são a minha referência. Depois, é ter a consciência que em Abrantes e em outras cidades não gosto muito de usar o termo “interior” como algo
inferior, mas onde acontecem menos coisas, pelo que muitas vezes não existe acesso a este tipo de eventos. Por exemplo, em Lisboa e Porto acontecem “aos pontapés” e talvez são só mais um... e aqui eu acho que é algo que realmente pode marcar.

É a tal coisa de não ser um evento comum e de, atualmente, vivermos numa fase complexa do ponto de vista da análise sociológica e do comportamento das pessoas. É um desafio, mas que eu acho muito importante, pois nem que daqui a um ano ou dois me aqui apareça alguém a dizer que se tornou músico porque esteve a falar com o Samuel Úria e percebeu uma série de coisas, ou alguém que virou escritor porque esteve a ouvir o Afonso Cruz ou o João Tordo... ou alguém que decidiu viajar porque ouviu aqui exemplos de muitas histórias de pessoas que passam parte da sua vida a viajar... para mim isso já está ganho.

E é um bocadinho com essa perspetiva, mais uma vez completamente romântica, de tornar aquele que é o lugar onde eu nasci e onde eu vivo, e onde vou provavelmente viver para sempre, um lugar melhor. Por outro lado, também tenho uma filha pequenina e quero que ela, quando crescer, pelo menos tenha essa hipótese de escolher viver aqui, pois é um sítio onde acontecem coisas... e onde existe gente interessante e por aí fora.

 

Para além de contribuir para o fortalecimento do elo de ligação entre ti e os leitores do “Meu Escritório é lá fora”, a existência destes eventos contribui para o desenvolvimento do público nas temáticas das viagens, arte, cultura e criatividade. Desta forma, para além de “sonhador profissional”, consideras-te também um “inspirador profissional”?

(risos) Já falei um pouco disso na questão anterior. Eu muitas vezes digo que sou um sonhador profissional como definição e já disse isso “pilhas de vezes”, pelo que até já gozei com o facto de não existir esse cargo nas finanças, porque na verdade é muito difícil definir-me. Já houve alturas que tive alguns problemas com isso, do tipo “o que é que sou verdadeiramente?”, porque posso ser muitas coisas.

Essa questão surge sempre cada vez que vou preencher um formulário seja onde for... e digo que sou o quê? Eu muitas vezes cometo o erro do facilitismo de dizer que sou um empresário, para não perder muito tempo a dizer o que sou. Contudo, apesar dessas pequenas questões, quando vou preencher formulários, na verdade esta falta de definição não me causa nenhum transtorno... e provavelmente a graça, em mim, acaba por ser essa.

Nós, ao olharmos para nós mesmos, seja em que profissão for, conhecemo-nos a nós e aquele que é o nosso talento e o nosso potencial, e acho que isso é fundamental. Realmente, o meu potencial e o meu maior talento é sonhar; com uma característica muito diferente, talvez da de alguns sonhadores ou que se dizem sonhadores: é que eu não aguento sonhar sem criar e sem experimentar.

Aquilo que as pessoas normalmente veem do blogue, ou até mesmo deste espaço, é apenas uma pequena parte daquilo que eu realmente queria: há algumas coisas que são visíveis, outras que são para não se ver e outras coisas que vão aparecer. Também não gosto de criar coisas eternas, ou seja, mesmo isto que estás a ver do “escritório” e da “agenda” provavelmente vai ser uma coisa fugaz. Há de haver um momento em que eu não quero fazer mais isto e quero fazer outra coisa... e acho que vai ser sempre assim.

Aquilo que eu digo, e que já disse no início, do meu escritório ser uma folha em branco eu levo muito a peito, isto é, se me disserem que daqui um ano ou dois não existe o blogue, mas que existe outra coisa qualquer, eu acredito.

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Para além das viagens, quem mexe no teu íntimo profundo, aquele que não sabias que existia até ela nascer, é a tua filha de um ano, a Alice. Segundo consta no site New In Town, começaste a viajar ainda em bebé com a família. Em relação à “menina mais linda e mais fofinha do Mundo”, como gostas de chamar à tua filha Alice, o que é mudou a seguir ao seu nascimento? E no futuro? Vais deixar-lhe o sonho que comanda a tua vida como herança?

A Alice mudou tudo. Eu acho que a minha mãe disse-me isso pilhas de vezes durante a minha vida, que eu às vezes não percebia, do tipo “Ah filho, quando fores pai vais perceber”... e eu acho que isso acontece com toda a gente de uma forma geral, uns mais que outros, mas a verdade é que há diversas lâmpadas e botões que se acendem dentro de nós e nós não sabíamos que existiam, não é?

Houve muitas coisas que mudaram na minha perspetiva de ver as coisas. Na parte da criação, ajudou-me a ser muito mais comunitário, ou seja, olhar muito mais para os outros. Talvez seja uma coisa que não atinja da mesma forma as outras pessoas, mas parece que eu tenho um legado diferente a deixar.

Depois, houve outras coisas menos boas que ela me deu (risos). Além das noites mal dormidas, comecei a sentir algum medo, por exemplo, sei lá, a viajar. Nunca tive medo de nada e, agora, dou por mim dentro de um avião a pensar que aquilo pode cair e nem é por mim, mas que é mais por ela, mas isto é uma coisa que espero que me passe. E depois também, provavelmente a mais importante, é a questão do tempo.

O valor que se dá ao tempo, se noutras alturas era muito mais espontâneo nas minhas decisões, nomeadamente viajar e ir para outro sítio durante muito tempo, hoje tudo tem de ser muito bem ponderado... sobretudo pelo tempo que valorizo com a minha filha, pelo que não vou desperdiçar uma coisa que nem sei bem o que é que vai dar, por exemplo um mês a viajar não sei por onde, quando penso também que será um mês que vou perder com a minha filha.

Atualmente, a minha balança é muito, muito mais cuidada naquelas que são todas as decisões de tempo fora.

Finalizando a tua questão, se há coisa que eu tenho noção que posso dar à minha filha são sonhos. Quer dizer, ela já viajou algumas coisinhas durante este ano de vida. Pelo menos em Portugal conhece todos os cantinhos, incluindo os Açores e por aí fora, e quando tiver um pouquinho mais de autonomia também vai começar a viajar para outros lugares. Realmente, é a melhor coisa que lhe posso dar. Em relação àqueles que serão os sonhos dela e a vida dela, até seria completamente contraditório, segundo a minha postura em relação a quase tudo, não lhe dar essa liberdade total... e o que eu quero lhe mostrar é o mundo para ela poder tomar as melhores decisões... e as melhores decisões serão as decisões dela.

 

Por fim, antes de fazer a última pergunta da entrevista passo a citar o último parágrafo da tua biografia: “Sou obcecado pelo pormenor, não acredito em coisas mais ou menos, adoro arte, cultura e gente inventiva. Nunca estou satisfeito e não consigo perceber o significado da palavra comodismo. Adoro ter uma ideia, concretizá-la e partir para outra. Gosto muito de falar, gosto muito de conhecer gente interessante. Gosto muito de escrever, gosto muito de contar histórias, gosto muito de ler, gosto muito de fotografia. Sou muito ligado aos meus amigos e à minha terra. Muitas vezes digo que devo ser o viajante mais caseiro do Mundo.”

Assim, passo-te a colocar a seguinte questão: Carlos, que conselho darias aos jovens da atualidade? À tão chamada Geração Z?

Em relação a novas gerações, eu não sou aquele típico saudosista de “na minha geração é que era”. Eu acho que, hoje, muito se fala desta questão das redes sociais e do comportamento ser muito diferente nas novas gerações. Contudo, eu sou daqueles que acredita que a próxima geração é sempre melhor (até do que a anterior).

Estão mais preparados, sabem mais, têm acesso a mais coisas. Aliás, eu lembro-me que, até quando decidi ir para Engenharia Civil, foi por clara falta de informação. De informação, de inspiração, quer dizer, provavelmente já cresci assim. Se eu olhar para trás vejo as coisas que mais gostava e as que me davam dinheiro com Engenharia Civil: fui ser aquilo que o meu pai também era.

Naquela altura, para ouvir uma música que gostava tinha de percorrer meio mundo, não é? E não é que isso não seja importante, ou seja, hoje as coisas também são demasiado fugazes e isso, se calhar, também não é bom. Às vezes, é bom percorrê-lo, o tal meio mundo, até chegarmos a um objetivo.

Todavia, acho estas novas gerações muito diferentes das gerações anteriores, provavelmente porque o mundo corre a uma velocidade completamente diferente por muita culpa destes avanços tecnológicos, que trazem coisas más, mas coisas muito boas, pelo que gosto mais de olhar para as coisas boas.

O princípio, e aquele que talvez ninguém me diria quando eu tinha 18 anos, é que hoje em dia vocês podem ser quase tudo aquilo que quiserem. Isto é, os limites são muito poucos, porque a sociedade também tem essa abertura diferente... e vocês têm essa possibilidade de abertura. Vocês podem dizer aos vossos pais: “quero ser cineasta, músico ou bailarino”, que era uma coisa que quando eu tinha 18 anos era impensável.

Se eu dissesse isso a alguém, algo ligado, nomeadamente, à questão das artes e da criatividade, todaagenteperguntaria“mastuvaiscomeroquê?”e “comoéquevaispagarastuascontas?”. Essas também são perguntas importantes para quem tem filhos e para quem é crescido, mas a verdade é que hoje há essa possibilidade e não está implícito que podes ter uma vida mais confortável, a nível monetário, se tu fores engenheiro ou médico. Atualmente, essas novas profissões são todas muito mais valorizadas.

Agora, o maior conselho que posso dar é também não abusarem dessa liberdade, e quando eu digo isto é no sentido de a conquistarem. Ou seja, trabalharem, inspirarem-se, aproveitarem essa informação toda e o acesso a pilhas de coisas que vocês têm.

Hoje vive-se um bom momento em Portugal em diversas áreas que têm de aproveitar para serem melhores e, consequentemente, também tornarem este lugar inacreditável, que é o mundo, um lugar melhor.

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Oiça a entrevista:

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