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Bibliotecas Cool

Observar - Ler - Sentir - Ouvir - Refletir

Bibliotecas Cool

Observar - Ler - Sentir - Ouvir - Refletir

05.Dez.20

Ser Escritor é Cool - Resultados do 1º Desafio | Ensino Secundário

Bibliotecas Cool tem a honra de dar a conhecer os vencedores do 1º Desafio do Ensino Secundário, da edição de 2020/2021, do concurso de escrita "Ser Escritor é Cool". Tivemos um total de  1508 votos do público e o júri teve uma árdua tarefa.

Parabéns a todos os jovens escritores que nos enviaram os seus textos.

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Divulgamos os vencedores deste 1º desafio, subordinado ao tema "Não tenho nada para fazer! E agora?" e os seus textos.

 

1º LUGAR -  Inês Franco, Agrupamento de Escolas de Constância

O livro que tinha sentimentos

Cá estou eu, mais um dia nesta estante, sem ninguém me escolher e ler os lindos romances que tenho dentro de mim. Será que é o meu aspeto? Ou será que os meus lindos romances não são tão bonitos como eu penso? Será que é o meu autor, que não é conhecido o suficiente? Ou será que simplesmente as pessoas perderam o interesse nos livros?

Já lá vai a altura em que alguém pegava em mim e me folheava. Já lá vai a altura em que alguém sentia as palavras que em mim estão escritas. Mas não sou só eu que não sou escolhido, todos os livros nesta biblioteca raramente são abertos. Era como se a cada dia que passasse as pessoas dessem cada vez menos valor à leitura, aos sentimentos e à aprendizagem. Era como se os livros não existissem.

Cada vez que ouvia a porta da biblioteca bater, ou mesmo quando ouvia pessoas a passar pelo corredor dos livros de romance, começava a sentir me ansioso, será que era desta vez que ia ser escolhido? Mas não, nunca era. Será que é por estar numa estante muito alta? Será que é por aquele corredor não ter luz suficiente? Será que esta biblioteca não era assim tão conhecida? Ou será que não sou bom o suficiente para ser lido? Estas eram as perguntas que fazia, mas, no fundo, sabia que nunca iria obter uma resposta, pois não passo de um mero livro.

Chegou a uma altura em que perdi a esperança e limitei-me a ser um livro, a não fazer perguntas, a não estar ansioso de cada vez que alguém entrava naquela biblioteca. E foi precisamente nessa altura que fui escolhido e, quem diria que seria escolhido por duas pessoas? Um rapaz e uma rapariga.

- Desculpa, podes ficar com ele, eu vejo se há outro exemplar- disse o rapaz para a rapariga.

Intrigou-me o que o rapaz disse. Como assim, outro igual a mim?! Será que há outro igual a mim que é mais lido do que eu só por estar noutro lugar?

-Não há outro. – respondeu a rapariga - Quando cheguei perguntei à bibliotecária e ela disseme que só existia este livro.

- A sério? Precisava tanto de ler esse livro para um trabalho de português e não o encontro em lado nenhum- disse o rapaz com uma voz desanimada.

Então, para além de ser o único nesta biblioteca, não existem muitos iguais a mim? Por momentos comecei a sentir-me bem e, pela primeira vez na vida, senti-me especial, único e tantos outros adjetivos que existam para poder descrever aquilo que senti.

- Eu também o tenho de ler para um trabalho. Podemos lê-lo à vez ou, se quiseres, podemos lê-lo juntos- sugeriu a rapariga.

Imaginem a minha emoção! Duas pessoas a lerem-me ao mesmo tempo!...

O rapaz aceitou a oferta, mas não foi só pelo trabalho que tinha de fazer sobre mim. A verdade é que também aceitou porque tinha gostado daquela linda moça. E a rapariga, de tão inocente que era, não se apercebera disso. Eles requisitaram-me e todos os dias, depois das aulas, durante uma semana, liam-me, folheavam-me, e sentiam tudo o que estava escrito em mim. Até que um dia, o rapaz não apareceu, e a rapariga ficou inconsolável, pois pensava que o rapaz se sentia da mesma forma que ela. E, por momentos, compreendi a sua dor, pois sabia qual era a sensação de não ser escolhido, de me achar insuficiente para alguém me ler, de ser magoado.

Senti as minhas páginas molhadas. A rapariga estava a chorar e eu não podia fazer nada. Porquê? Porque eu era um mero livro... eu não a podia reconfortar sem ser com o texto que se encontrava nas minhas páginas. Mas quem é que quer ler romances quando o seu coração acabou de ser partido? A rapariga fechou-me e, a determinada altura, disse em voz alta:

-Mas como fui tão estúpida! É óbvio que ele não iria querer nada comigo... Vou acabar o livro hoje para terminar também o trabalho e amanhã vou entregar o livro.

Naquele momento senti-me mal, pois parecia que a culpa de não terem ficado juntos estava a ser colocada em cima de mim... mas como era isso possível? Eu sou um livro de romances, dos mais lindos existentes naquela velha biblioteca e, no final, não consegui que este romance se tornasse realidade.

No outro dia de manhã a rapariga foi entregar-me à biblioteca e, com a permissão da bibliotecária, colocou-me naquela estante em que durante muito tempo repousei os meus romances. Contudo, naquele momento reparou que estava um bilhete e uma carta exatamente no local da estante onde repouso. Ela agarrou nos papéis e colocou-me no lugar. Leu o que dizia: “Desculpa não ter conseguido ontem ir ter contigo e também por não te ter avisado, mas tinha uma razão. Abre a carta e saberás.” Ela abriu a carta mas, ao contrário do bilhete, não o leu eu voz alta o que não me permitiu saber o que aquele rapaz tinha escrito naquele pedaço de papel. No entanto, senti as suas emoções e percebi que ela já não estava magoada ou mesmo insegura; ela agora sentia-se feliz e esclarecida. Ela pegou-me de novo e disse-me como se soubesse que eu a estava a ouvir e como se eu a entendesse:

-Afinal, ele quer alguma coisa comigo; afinal, ele não queria só saber de mim por causa do trabalho; afinal, ele gosta de mim como eu gosto dele, e eu tenho de te agradecer a ti. Mesmo que sejas só um mero livro, tornaste a minha vida mais feliz, mais culta. Obrigada!

Ela voltou a pousar-me na estante e saiu. E, a partir daquele dia, nunca mais me senti insuficiente, feio de mais, ou até mesmo que as minhas histórias não fossem boas o suficiente para serem lidas, sabia que aqueles dois me tinham escolhido, se tinham apaixonado pelas minhas histórias e, no final, ainda se apaixonaram um pelo o outro. E, mesmo que nunca mais alguém me leia ou me peguem, eu sou feliz, pois fiz pessoas felizes e não há ninguém nem nada que destrua esse sentimento.

 

 

2º LUGAR - Cristina Cargaleiro, Agrupamento de Escolas de Bonfim

O livro tem o fim à vista? E a leitura?

Quando leio, não leio apenas, ofereço-me a um novo mundo que se abre diante de mim e me absorve e que mesmo não sendo meu, entrelaça-se com suavidade por entre cada futura emoção ou sentimento que a partir daí sentirei. Este costuma ser aquele momento em que as pessoas que me estão a ouvir perguntam «Então e quando terminares o livro? O que acontece nesse momento?» Às pessoas que estão com pressa costumo responder apenas «Nesse momento começo a ler um novo livro», apesar de raramente o começar instantâneamente. Depois de ler o livro, disfruto a sua leitura...

Todos os leitores experientes enquanto leem, conseguem por defeito ou por excesso estimar o tempo que dedicarão a ler o livro do momento. Todos os livros têm o fim à vista! Mesmo quando não acabamos de o ler. Os livros são editados para serem terminados, esta é uma regra da realidade contra a qual não podemos lutar.

Gosto de pensar que os livros finalizam mas a leitura se eterniza. Espero não ser a única a pensar assim mas se for, creio que vou ter de aprender a viver com isso porque a essência da pessoa que somos é mais uma realidade contra a qual não podemos lutar (nem devemos). Não é (nem jamais será) o conteúdo do livro que perdura (talvez até sim de certo modo porque os museus dispõem de métodos de conservação cada vez melhores) mas sim a leitura que fazemos dele. Aquela breve e simultâneamente longa interpretação que fazemos deles, aquelas palavras inocentes, infantis e vazias que nós vamos enchendo com significados, emoções e pensamentos ao longo da nossa breve, passageira e repleta vida.

Relembro enevoadamente a história d’O livro que só queria ser lido de José Jorge Letria. Foi o primeiro livro que li. Antes disso lia a ouvir a minha mãe ler para mim e às vezes nem era para mim, mas não é por isso que esse momento tenha de deixar de ser meu. Estando o livro em Português, uma língua que eu bem conheço, entendi-o perfeitamente no meu intelecto. À medida que o meu coração vai amdurecendo, cada vez me sinto mais como esse livro. Sei que um dia terei um fim e talvez um dia algum brilhante cientista me consiga dizer até o segundo em que ao jardim das tabuletas me irei juntar no entanto, tenho mais de entre o âmago de mim para cá deixar. Porque cada um de nós é também um livro que está a ser lido e apesar de nós sermos simples passageiros seguindo o direito fio desta torta existência, deixaremos cá a nossa leitura, para ser reeditada e relida pelos nossos leitores que gostaram de nós.

Espero (e mesmo que anteriormente não, estou certa que nesta esperança encontrarei mais seguidores), espero que a minha leitura nunca tenha um fim à vista nem a de nenhum dos livros-pessoas que li e ainda (à minha maneira pessoal, única e original)lerei. E não se esqueçam, a maneira como leem os outros, define em muito a maneira como serão lidos neste suave ou repleto e breve ou longínquo futuro.

Escrito a 5/11/2020, começado não sei quando e terminado às 13:15:38 (isto inclui a finalização da redação do vocábulo terminado).

 

3º LUGAR - Ana Fernandes e Margarida Soares, Agrupamento de Escolas de  Constância

O enigma do livro abandonado

Numa tarde soalheira de verão a Penélope combinou com os amigos ir a um café em Lisboa, mas antes, tinha de ir buscar a sua amiga Beatriz a casa.

Pelo caminho, encontraram algo de estranho.

- O que é que está em cima daquele banco?- questionou Penélope.

-Não sei, vamos descobrir. – respondeu Beatriz.

-Um livro abandonado. Isto é algo fora do comum...

Intrigadas com aquilo, decidiram levar o livro com elas. Já no café, partilharam com os amigos o que tinha acontecido.

Passado algum tempo, foram todos para casa. No entanto, a Beatriz foi para a da Penélope para resolver o enigma do livro abandonado. Ao mexerem nele, repararam que na contracapa existia um número e um código QR. Esse código encaminhou-as para um site onde pessoas de vários sítios davam a sua opinião sobre a obra, descobrindo também que se tratava de Bookcrossing. Ao lerem os comentários, aperceberam-se que o livro abordava um romance e uma vez que as críticas eram bastante positivas, ficaram interessadas em lê-lo. Ambas combinaram que no dia seguinte iriam para o jardim ler o romance.

Uma semana depois, as raparigas acabaram de ler o livro.

- O que fazemos agora?- perguntou Beatriz a Penélope.

- E que tal darmos a nossa opinião sobre a leitura no site e partilhamos com os nossos colegas este conceito de deixar os livros em sítios públicos e recomendarmos a leitura dos mesmos?

- Sim, vamos convidá-los para virem cá ter a casa para falarmos sobre este assunto.

Ao chegarem, a Penélope explicou que deixar livros em sítios com muita gente era uma prática adquirida pelas pessoas com a intenção de transformar o mundo inteiro numa biblioteca, ao mesmo tempo que se promovia a leitura.

- Mas assim os livros não se estragam?- questionou um dos

- Não. – respondeu a Penélope- Pelo contrário, assim permite que um maior número de pessoas possa ler o livro em vez de os colocar numa estante a ganharem pó.

- Eu que não era muito dada à leitura, ganhei vontade de começar a ler mais e diferentes géneros literários.- admitiu a Beatriz.

- E o que acharam da leitura?

- Eu gostei muito do livro!- respondeu Penélope entusiasmada.- Ao ler um pouco vamos ficando cada vez mais presos à história e com vontade de ler mais e mais. Para além disso, obra tinha vocabulário acessível para jovens, o que torna a leitura mais fácil.

-Por mim continuamos com este conceito e deixamos o livro num outro local.- afirmou Beatriz.

-Acho que fazem bem. Vou pesquisar mais sobre o Bookcrossing pois pareceu-

-me interessante.- disse o colega, curioso e entusiasmado.

Mais tarde, as duas foram deixar o livro a uma paragem de autocarro perto da escola e a Penélope disse:

-O Bookcrossing leva-me a pensar que os livros não têm um fim à vista porque depois cada pessoa acabar a leitura, pode dar continuidade à história consoante a sua imaginação.

Após desta aventura, ambas passaram a ler com mais frequência e os amigos, influenciados por elas, também introduziram a leitura no seu dia a dia.

 

 

 

 

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