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24.Mar.21

Ser Escritor é Cool - Resultados do 3º Desafio | 3º ciclo

Os vencedores do 3º Desafio do 3º ciclo do concurso de escrita "Ser Escritor é Cool" já foram encontrados. Relembramos quo o tema deste desafio era "Tudo me incomoda! Até os ativistas... O que posso fazer?"

 

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Dos 6 trabalhos a concurso, houve 707 votos do público e inúmeras partilhas, leitura dos textos e audições do podcast a concurso.

 

Os vencedores deste 3º desafio foram:

1º LUGAR - Leonor Antunes – Agrupamento de Escolas de Castelo de Vide

2º LUGAR - Beatriz Grácio – Agrupamento de Escolas nº 2 de Abrantes

3º LUGAR - André Gonçalves – Escola Secundária da Portela

 

Para que possa voltar a ler os textos dos Escritores Cool vencedores deste 2º desafio, aqui ficam os trabalhos.

1º LUGAR - Leonor Antunes – Agrupamento de Escolas de Castelo de Vide

 

 Tudo me incomoda! Até os ativistas… O que posso fazer? 

Há dias em que me sinto estranha, mas não sei o que é! Esta manhã acordei e, ao olhar para o relógio, percebi que estava atrasada, porque é que temos de ter tempo? O tempo e o seu cumprimento incomodam-me. Na correria, tropecei num móvel, que dores senti no meu dedo mindinho do pé. Porque é que haveremos de ter tanta tralha em casa? Só incomodam e, se incomodam, é porque são desnecessárias. Durante o pequeno almoço liguei a TV e nas notícias estavam uns ativistas a reclamar de alguma coisa, quando os vi perdi logo o interesse. Percebi que até estas pessoas incomodam, porque não fazem a vida delas defendendo os seus ideais sem incomodar os outros?! 

Enfim, fui para a escola e, quando cheguei, vi outros estudantes a fazer um protesto. Eu não me interesso muito por este tipo de coisas, na verdade até odeio, mas estava com curiosidade e aproximei-me. Estavam a fazer um protesto para a escola começar a servir comida vegetariana. Eu sei que os vegetais são importantes para manter uma dieta saudável, mas não será um exagero? Existem outras maneiras de nos mantermos saudáveis sem saladas ou outros alimentos. Eles faziam-me lembrar os ativistas que apareceram nas notícias, eles só fazem os que lhes parece melhor, nem se importam com a opinião dos outros. Fui falar com a suposta “líder” do protesto e disse: 

- Em vez de estarem a fazer estes protestos inúteis, porque é que não vão fazer alguma coisa que realmente vos possa ajudar e que não incomode os outros? 

Reparei que a cara deles ficou um pouco mais descontente, mas não me importei e fui-me embora. 

Continuei o resto dia como outro qualquer. Hoje, como estava um dia ensolarado, decidi ir para casa a pé. Foi preciso ter azar, pois no caminho encontrei outros ativistas, mas estes eram diferentes. Defendiam um assunto que realmente era importante, igualdade de género. É um assunto delicado, mas eu não entendo, um simples protesto não irá mudar as pessoas de um dia para o outro. Porque é que eles se dão trabalho de protestar sabendo que as pessoas que passam por eles não querem saber. Não estarão apenas a perder tempo? 

Cheguei a casa e fui logo fazer os trabalhos de casa. Já eram nove da noite e a minha mãe chamou-me para jantar. Enquanto comíamos, os meus pais falavam dos protestos que estavam a acontecer na América, os “Black Lives Matter (Vidas Negras Importam)”. Fiquei apenas um curto espaço de tempo a ouvi-los falar, até que decidi perguntar: 

- Porque é que as pessoas se dão ao trabalho de passar dias a protestar, sabendo que ninguém lhes vai dar ouvidos? 

A minha mãe olhou para a mim a sorrir e disse: 

- Talvez estas pessoas acreditem que se continuarem a defender as suas ideias, um dia as outras pessoas irão ouvi-las, e com isso poderíamos criar um mundo de paz em que todas as raças ou culturas se entendam

- Mas às vezes existem certas ideias que não deveriam ser defendidas ou ouvidas, porque é que as pessoas continuam a defendê-las mesmo sendo absurdas? 

- Claro que existem certas ideologias que são um bocado exageradas, mas cada pessoa tem a sua razão para as defender. Por exemplo, a pena de morte, existem pessoas que defendem que deveria existir, outras dizem que não deveria existir. Agora faço-te uma pergunta, imagina que há um criminoso que matou 10 pessoas, o que é que achas que ele merecia? 

- Acho que merecia prisão perpétua, pois deveria sofrer o resto da sua vida na prisão, e acho que ao matarmo-lo estaremos a livrá-lo da dor e do ressentimento. Por isso, eu defenderia que não deveria existir pena de morte. 

- Agora outra pergunta, imagina que esse criminoso me tivesse matado, o que é que achas que ele merecia? 

- Pois… agora já é diferente, eu acho que diria pena de morte, não conseguiria suportar a dor de perder alguém que me é querido, iria querer que esse criminoso morresse. 

- Viste como mudaste a tua resposta numa questão de segundos por causa de uma pequena diferença? É isto que eu estou a tentar explicar-te, cada um tem as suas razões e seus motivos, por isso não deveríamos criticá-los por esse motivo. Enquanto para nós é inútil, para eles pode ser muito importante e farão de tudo para o realizar. 

No dia seguinte, levantei-me da cama e fui vestir-me. Por um triz não bati com o dedo mindinho do pé no móvel, já estava suficiente negro de ontem. Fui tomar o pequeno-almoço e nas notícias falava-se dos mesmos ativistas de ontem. Enquanto via as notícias lembrei-me que devia um pedido de desculpas a alguém. 

Segui para a escola, quando cheguei não havia nenhum protesto. Estranhei, mas talvez tenha sido o que eu disse ontem que os desanimou e os fez desistir. Fui pela escola toda à procura deles, até que os encontrei. Eles tentaram afastar-se de mim, mas eu meti-me na frente deles e disse: 

- Bem… acho que vos devo um pedido de desculpas… não vos deveria ter criticado sobre uma coisa que vocês tanto querem defender e em que eu não deveria de me meter no meio; já que não me diz respeito, não deveria ter agido tão impulsivamente, por isso, desculpem. 

- Não te preocupes, também não és a primeira que nos diz isso, mas és a primeira a pedir-nos desculpa, por isso, desculpas aceites. - dizia a outra rapariga. 

- Mas posso perguntar o porquê de vocês fazerem estes protestos? 

- Ah, é que eu e outras pessoas desta escola somos vegetarianos, e a escola não faz comida vegetariana, então, às vezes, temos que saltar algumas refeições e passamos fome, por isso fazemos isto. 

Agora já fazia mais sentido, é como dizem “não devemos criticar um livro pela sua capa”. 

A partir desse dia passei a protestar com eles e espero estar a ajudar todos os alunos vegetarianos desta escola para não voltarem a passar fome. 

 

2º LUGAR - Beatriz Grácio – Agrupamento de Escolas nº 2 de Abrantes

Contradisseste-me 

Dezembro já tinha chegado, mas, embora o frio prevalecesse, havia agora um sol diferente das nuvens de novembro. As noites, no entanto, deixavam a casa gelada. O episódio que te conto nesta carta passou-se exatamente numa dessas noites frias, depois do jantar. Tu e a tua avó cobertas com mantas, no sofá, e eu, claro, no meu cadeirão a ver o telejornal. 

̶̶ Credo! Lá vêm eles outra vez com os ativistas. Já cansa! 

O desdém na minha voz fez-te virar imediatamente para mim, com os olhos abertos e a brilhar, e as sobrancelhas erguidas, com espanto. 

̶ Mas o que é que te irrita tanto nos ativistas, homem? ̶ perguntou a avó Aline, que estava farta de me ouvir reclamar. 

̶ Tudo, tudo! Não vês que aquilo é só garganta?! Protestam, gritam, mas depois, na hora da verdade, não servem para nada, a não ser para falar, falar e falar… As ações que fiquem para os outros, aqueles que mandam, mas não se esforçam para mudar nada! E o pior é que os ativistas aparecem por todo o lado, muito bem vistos, e ainda são idolatrados! Até eu conseguia fazer um discurso contra o desperdício de água ou a criticar o racismo e a violência… 

Foi aí que te olhei, já adivinhando as perguntas sobre o que tinha acabado de dizer, como: "O que são ativistas?". Mas a questão que surgiu foi muito diferente: 

̶ Porque pensas assim, avô? 

Olhei-te. 

̶ Assim como? – perguntei. 

̶ Por que é que achas que as ações são mais importantes do que as palavras? 

̶ Não é que eu ache que as palavras não importam. Só que… 

E fiz uma pausa. 

̶ Só que…? 

̶ Acho que, no final, as ações fazem realmente a diferença. 

̶ Então, para ti, as palavras só completam as ações ̶ concluiu a tua avó, que bebia, muito atentamente, cada palavra daquela conversa. 

Eu hesitei na minha resposta, mas escolhi dizer com confiança: 

̶ Sim, pode dizer-se que é assim que penso. 

̶ Mas as palavras fazem tudo!... 

Quando disseste isso, eu esqueci-me novamente daquilo que tinha planeado ser para ti. Apenas quis debater aquela questão e só estava concentrado nela. 

̶ Fazem tudo? ̶ perguntei-te. 

̶ As palavras tocam as pessoas ̶ explicaste. ̶ As palavras podem deixar-nos mais felizes ou mais tristes, num só segundo. E, acima de tudo, é através das palavras que deitamos cá para fora o que sentimos. Então, se calhar, avô, os ativistas usam as palavras para chegar melhor às pessoas. 

Eu e a tua avó não dissemos nada. Só ficámos a olhar para ti. Ela com um sorriso, claro, e eu apenas com um ar sério e pensativo. Foi pouco depois que o telefone tocou e a tua avó se levantou para o ir atender. Eu e tu esperámos na sala, até que a ela entrou na sala, de rompante. 

̶ Era do hospital – disse a avó. ̶ A Margarida acordou! Ela vai ficar bem, só precisa de mais duas semanas de repouso e ainda consegue passar o Natal contigo, Catarina! 

Tu esboçaste um sorriso bonito e reluzente, antes da tua avó te levar para a cama. Depois, ela voltou à sala e sentou-se perto de mim. Ficámos os dois em silêncio, mergulhados no som do telejornal, obviamente. 

̶ Olha, parece que os chineses têm para lá um vírus novo... ̶ comentou a tua avó, para quebrar o silêncio tremendo. 

̶ Sim – respondi desinteressadamente. ̶ Pelos vistos... 

 

3º LUGAR - André Gonçalves – Escola Secundária da Portela

Tudo me incomoda! Até os ativistas… o que posso fazer? 

No início, limpar todas as casas da rua até estava a ser divertido. Não por estarmos a limpar, mas pela forma como o fazíamos. Cantávamos, contávamos piadas um ao outro, riamo-nos à gargalhada. Era uma festa! Só quando algum vizinho passava é que realmente limpávamos. 

Mas ao longo do tempo começou a tornar-se aborrecido. Percebemos que tínhamos de limpar tudo até ao final do dia seguinte… e ainda não tínhamos acabado a primeira casa. 

— Seria assim tão difícil cada vizinho limpar a sua casa? - reclamávamos nós. 

Tudo incomodava o meu caríssimo amigo, incluindo os ativistas que não tinham minimamente o objetivo de nos incomodar. Contudo, passavam por nós com uma certa regularidade e até isso mexia com o João naquele momento. De qualquer forma, não tinha a certeza se ele sabia o que significava a palavra ativista. 

E, para além de tudo isto, ainda tínhamos de aturar o Rui, um miúdo da nossa escola que era insuportável. Porém, vivia perto do nosso bairro e aproveitou para tirar o dia para nos chatear. Ficou parado perto da casa que limpávamos. Não dizia nada, estava calado. Eu não queria começar uma discussão, mas o João não ia aguentar muito tempo. Em algum momento ia ter um ataque de raiva e ia disparar contra tudo o que lhe aparecesse à frente. O Rui era uma junção de mim e do João. Por um lado, era um miúdo muito inteligente; por outro, era aventureiro e com os impulsos do João. 

Tenho de admitir: estava intrigado com a postura que o Rui mantinha. Não dizia uma única palavra. Estava com as mãos atrás das costas como se escondesse alguma coisa. Comentei isto com o João, mas logo a seguir arrependi-me. O João dirigiu-se-lhe com toda a sua raiva: 

— Rui, sai daqui ou mostra-nos o que trazes atrás das costas. 

O que tentara evitar até àquele momento tinha acabado de começar. Vinha aí mais um episódio de uma longa saga. 

Entre dentes dizia ao João para se acalmar. No entanto, sabia que não me escutava. 

— Eu?! — perguntou o Rui, ironicamente. 

— Claro que és tu, quem havia de ser?! 

— Ah, desculpa! Tenho de agir com muita cautela para não se partir. 

O Rui estava a tramar alguma. A calma na voz dele, o não ter entrado no jogo de palavras do João, tudo isto era estranho para mim. Possivelmente teria um plano que iríamos descobrir nos próximos instantes, um plano que eu receava, conhecendo o Rui como conheço. 

Tirou uma das mãos de trás das costas, com muita calma. Parecia que um segundo demorava uma hora a passar. Estava ansioso por descobri o que ele tramava. Era um ovo. Um ovo? Estava confuso. Seria só para nos “picar” por estarmos a limpar as casas cobertas de ovos ou seria algo mais? Reparei que só tinha tirado uma das mãos de trás das costas, mas ignorei esse aspeto. Ainda estava a pensar nas suas possíveis motivações. 

— Já tirei, Joãozinho. Não vais dizer nada? — riu-se. 

Nenhum de nós abriu a boca. Eu e o João trocámos olhares a tentar perceber qual era o plano dele. 

Mas não foi preciso dizer nada. O Rui colocou a mão atrás da orelha, ganhando balanço para mandar o ovo o mais longe possível. A minha única reação foi tapar a cara para que aquele ovo não me acertasse em cheio. 

O ovo ia em direção à casa que eu acabara de limpar. Não estava preparado para ter de a limpar tudo outra vez, depois de já estar pronto para passar à segunda. Mas o ovo, ao bater na casa, não a sujou. Era um ovo cozido! Nessa altura explodi de alegria. O objetivo do Rui era apenas o de nos chatear, ele tinha fracassado no seu intento. No entanto, quando menos esperávamos, o Rui tirou a outra mão das costas e repetiu o processo, mas desta vez o ovo 

estava cru. Ao bater na parede, observámos o nosso trabalho deitado por água abaixo. VINGANÇA era a palavra de ordem! 

Nesse preciso momento, a senhora Luísa, a dona da casa, saiu para o exterior e, ao ver que a parede continuava suja, armou uma belíssima confusão. E agora não tínhamos como nos defender… 

Rapidamente um grupo de vizinhos juntou-se perto da casa para ajudar ao protesto. 

— Ainda estão a lavar esta casa? Com a tarde de sol que aí vem fica mais difícil limpar. 

— Ainda não limparam nem uma! É só brincadeira!... 

Estávamos muito zangados com o Rui. Tornou aquele dia num inferno, mais do que já era. 

Prometemos que iríamos limpar tudo até à hora de almoço, e então os vizinhos deixaram-nos trabalhar. 

—Tudo me incomoda! Até os ativistas que andam sempre aqui à nossa porta. Um deles é o Rui. O que podemos fazer? — perguntou o João. 

Afinal sabia o que eram ativistas! Não estava à espera. Fiquei durante um instante perplexo a pensar no facto de ele saber isso, mas depois processei o que ele me tinha perguntado. 

Levantei-me num ápice e disse-lhe: 

— Calma! Repete o que disseste. 

— Tudo me incomoda! Incluindo os ativistas! — exclamou o Rui. 

— Não é isso, o que disseste a seguir — disse-lhe eu. 

— O que podemos fazer? — voltou a questionar. 

— Não podemos ficar parados. Deve haver algo que denuncie o Rui. Vamos tentar descobrir. 

— Para quê? Não vamos conseguir arranjar nada que o comprometa. Mais vale fazer o que prometemos e limpar tudo até a hora de almoço — afirmou o João. 

No meio de tantas interrogações, o João apercebeu-se de que a casa do vizinho da frente da que estávamos a limpar tinha uma câmara de vigilância. 

O mais difícil tínhamos nós conseguido: arranjar uma solução para o problema. Agora tínhamos de convencer o Sr. Luís a deixar-nos ver as imagens, o que não seria tão fácil como parecia. 

Chegámos perto da porta da casa do Sr. Luís. Nenhum de nós se atreveu a bater à porta. Não tínhamos coragem de o fazer, já que embirra connosco por tudo e por nada. 

E que remédio tive eu! Só queria resolver a situação. Por estranho que pareça, o vizinho Luís facilitou tudo e cooperou connosco. Com a sua ajuda espalhámos pelo bairro o que o Rui nos tinha feito e os vizinhos uniram-se em defesa de castigo severo. Quando os boatos chegaram à mãe do Rui, ela ordenou que, em vez de o rapaz limpar apenas aquela casa, limpasse todas as outras, sujas por mim e pelo João. Ficámos cheios de euforia, mas esse momento acabou mal tinha começado, pois os meus pais e a tia do meu companheiro informaram-nos de que iríamos ajudar o Rui. 

No resto do dia, limpámos e limpámos! Só víamos panos e produtos de limpeza à frente! Porém, houve um aspeto positivo: nós os três deixámos para trás as nossas diferenças. Livrámo-nos do que queríamos… menos dos ativistas, que continuam a passar sempre à nossa porta! 

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