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07.Mai.21

Ser Escritor é Cool - Resultados do 4º Desafio | 3º ciclo

Os Escritores Cool continuam a surpreender o júri com a qualidade dos seus trabalhos. Os resultados do 4º Desafio do 3º ciclo já foram encontrados. Delicie-se com os trabalhos vencedores.  

 Relembramos quo o tema deste 4º Desafio do concurso "Ser Escritor é Cool" era "A arte tem muito que se lhe diga! Para que a quero? O que fazer com ela?"

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Dos 7 trabalhos a concurso, houve centenas de votos do público e inúmeras partilhas, leitura dos textos e audições do podcast.

 

Os vencedores deste 4º desafio foram:

1º LUGAR - Beatriz Grácio – Agrupamento de Escolas nº 2 de Abrantes

2º LUGAR - Maria Saldanha – Escola Secundária da Portela

3º LUGAR - Andreia Mimoso, António Batista, Daniela Serra, Laura Marques e Luana Felício - Agrupamento de Escolas de Marvão

 

Para que possa voltar a ler os textos dos Escritores Cool vencedores deste 4º desafio, aqui ficam os trabalhos.

 

1º LUGAR - Beatriz Grácio – Agrupamento de Escolas nº 2 de Abrantes

Capítulo IV: Desbloqueaste-me

“A arte não está no que fazemos, mas sim no que sentimos” − assim foi registado no meu bloco, no dia quinze de dezembro de dois mil e dezanove. E considero esta uma das coisas mais marcantes que já disse e pensei em toda a minha vida. Ou melhor: que tu me fizeste dizer e em que tu me puseste a pensar.

Na noite anterior, quando nos havia chegado a notícia das melhoras da tua mãe, ficaste muito eufórica, e eu com o sentimento que mais abominava: não sentir nada.

Eu não me importaria de estar zangado, rabugento ou mal disposto, naquele momento, pois até era a minha zona de conforto; nem tão pouco me importaria de estar triste, porque a tristeza era sempre transformada numa espécie de irritação ou fúria, sentimento que, segundo a minha cabeça, me protegia de tudo e de todos. Mas o problema era que, naquele momento, eu não estava feliz, não estava zangado, não estava triste. E eu detestava não estar a sentir nada.

A avó Aline deitou-te, quando te acalmaste da imensa euforia que havia tomado conta de ti. Eu fui para a cama muito tarde e acordei cedo na manhã seguinte. Depois de ficar até altas horas da noite a ver televisão na sala (ou melhor, a pensar com a televisão ligada), lembrei-me de que tinha outra zona de conforto, que era, somente, o escritório. Como tal, às sete e meia da manhã, levantei-me, tomei banho e arranjei-me como se fosse sair de casa para uma reunião muito importante. Fechei-me na divisão antiquada, com altas estantes castanhas, e sentei-me na minha poltrona vermelha de veludo, atrás da minha secretária gigante. Mais ou menos uma hora depois, concluí todo o trabalho que estava por fazer, ou seja, finalizei as crónicas que tinha de escrever para aquela semana. Como tal, decidi debruçar-me sobre a minha própria escrita, porque há escritores que não são jornalistas, mas não há jornalistas que não sejam escritores, daqueles que libertam a sua imaginação com estórias ou poemas. Dediquei-me então a uma história de muitos capítulos, que já andava a escrever há cerca de duas semanas, sobre um rei que se casava com uma rainha muito rica, mas depois se apaixonava pela sua irmã, e tudo durante uma terrível guerra, com a qual não se importavam, tão concentrados que estavam nos luxos.

“A rainha e o rei não sabiam se haviam de rir ou chorar. Depois de investir uma boa fortuna num casamento luxuoso, tinham escolhido um músico que não sabia tocar a melodia pretendida. Farto das queixas mesquinhas e das músicas complicadíssimas que lhe pediam para tocar, o músico ganhou coragem, ignorando a quase certa execução, e defendeu-se:...”...“E defendeu-se....”...“E defendeu-se, protestando que...”.

Eu conhecia a história há muitos anos, mas estava bloqueado, que era das coisas que mais detestava logo a seguir aos ativistas. E sempre que estou assim, a minha cabeça gira e gira à volta do que me pode estar a bloquear. Afinal, o medo de que fosses embora congelava o meu orgulho. E foi precisamente no meio desse turbilhão de questões que entraste no escritório.

− Olá! O que estás a fazer no escritório?
− Tento escrever – respondi, de forma seca e breve.
− Tentas? Por que razão não consegues? Tu não sabes escrever? Eu também ainda não sei, mas não faz mal. Já estou a aprender a letra C, que é quase uma minhoca muito enroladinha...
− Eu sei escrever. Sou jornalista. É claro que sei escrever.

Hoje, rio-me do quanto a tua afirmação me deixou irritado ou, pelo menos, serviu para despejar a ira que sentia.
− Mas não sei o que escrever nesta parte. Estou bloqueado...
− Bloqueado? Não percebo. Mas tu és um escritor muito bom! Sabes sempre escrever bem. Como é que podes estar bloqueado?
− Não é isso! Eu não posso escrever qualquer coisa sem sentido nenhum. As palavras bonitas têm de ter significado e de tocar quem lê! E isso não se aprende, porque a arte não está no que fazemos, mas sim no que sentimos.

Pode ser por ter estado acordado até às duas da manhã, mas, naquele momento, soube precisamente que o músico se defendeu com essa frase: “A rainha e o rei não sabiam se haviam de rir ou chorar. Depois de investir uma boa fortuna num casamento luxuoso, tinham escolhido um músico que não sabia tocar a melodia pretendida. Farto das queixas mesquinhas e das músicas complicadíssimas que lhe pediam para tocar, o músico ganhou coragem, ignorando a quase certa execução, e defendeu-se, protestando que a arte não está no que fazemos, mas sim no que sentimos! Desta forma, acabou por revelar que o casamento era uma farsa, denunciando, perante todos, o caso do rei com a irmã da rainha!”.

“No que sentimos”... Se calhar, eu não estava sem sentir. Se calhar, eu sentia medo. Medo de a tua mãe te levar de mim e não te ter comigo nunca mais.
− Mas para que serve a arte, afinal? – perguntaste como que a adivinhar os meus pensamentos.
− Como disse, a arte não está só em fazer coisas bonitas, em pintar um lindo quadro, por exemplo.

Mas está na forma como nos sentimos e em como expressamos as emoções. A arte não pode ser uma coisa exata, como são as regras. A arte está em tudo o que fazemos com sentimento. Às vezes, só sentir já é bonito. Só o sentimento cru já é arte.

Sorriste, pareceste esclarecida com a explicação, surpreendentemente. Nem eu próprio entendi de onde tinha vindo toda aquela treta sobre sentir. Até fazer as pazes com a tua mãe (como recordas que aconteceu depois), privei-me de sentir. Claro que foste um enorme desbloqueio no meu coração, Catarina. Nunca duvides disso. Mas dizem que perder um filho é uma dor que nunca se ultrapassa. E quando criei esta zanga com a tua mãe (que julgava que fosse durar para sempre), deixei de sentir. Deixei de acreditar no amor pelas pessoas. Deixei de confiar em mim, lá bem no fundo. Eu dizia que nunca perdoaria a tua mãe pela irresponsabilidade dela, ao longo da adolescência, e pela forma como me abandonou. Mas hoje sei com certeza que, na verdade, não me queria perdoar era a mim mesmo. Comecei a aperceber-me de que esta luta era interna e só eu podia acabar com ela. Contudo, se dependia de esquecer o passado da tua mãe, duvidava que isso fosse acontecer alguma vez.

 

2º LUGAR - Maria Saldanha – Escola Secundária da Portela

A arte tem muito que se lhe diga! Para que a quero? O que fazer com ela?

A palavra “arte” vem do latim ars, que significa técnica ou habilidade. É com as nossas mãos, o nosso corpo e a nossa mente que criamos arte. O nosso corpo experiencia as sensações e, na nossa mente, as memórias prevalecem.

Se perguntarmos a alguns, muitos dirão que a fazer arte é desenhar, pintar, esculpir, escrever... dirão que a arte é a música, a dança, o cinema ou o teatro. Teoricamente, é verdade. Mas, a meu ver, a arte é muito mais do que isso, e por isso é que tem muito que se lhe diga. “A arte é um resumo da natureza feito pela imaginação”, já dizia Eça de Queirós. A própria natureza é a arte de Deus.

É pela arte que expressamos os nossos pensamentos, sentimentos e as nossas opiniões. Enquanto os músicos se expressam através das canções que escrevem e cantam, revelando a sua alma e o seu lado mais íntimo, a escrita e as personagens refletem, por vezes, o escritor. Mas a verdade é que é tudo o mesmo: PALAVRAS! Eu poderia cantar e escrever num livro as seguintes palavras:

“Parece que os problemas se afastaram. E eu estava num lugar onde te podia amar sem rédeas. Éramos só tu e eu! E foi aí que percebi que podia viver mil vidas e nada se compararia a esta paixão.”

Não foi deste pequena que desenvolvi a paixão pela escrita, mas, mal comecei a escrever, apaixonei-me por ela. Quando escrevo, sinto-me exatamente como acima se descreve. É como se estivesse a viver noutro planeta, distante e de fantasia, onde sou feliz todos os segundos, onde não existem problemas e onde o que desejo acontece. Sempre amei ver filmes ou séries românticas, por isso, quando as comecei a escrever, foi como se estivesse a fazer magia.

Apesar de as palavras servirem para nos expressamos, também existem outras formas de o fazermos. Os pintores transmitem o que sentem através de um desenho, de um quadro; os músicos sentem cada som ou acorde que tocam num instrumento; e os escultores usam as suas mãos, cheias de emoções e aventuras, para moldar um material. Se pensarmos bem, é tão engraçado, pois, a partir do nada, construímos uma coisa bela. A partir de um pedaço de madeira, construímos uma face; a partir de um quadro ou um papel branco, fazemos um desenho, escrevemos e compomos uma música. “A arte diz o indizível; exprime o inexprimível,traduz o intraduzível.” Quem o disse, e muito bem, foi Leonardo da Vinci.

Todos nós conseguimos criar arte, basta acreditar!

 

3º LUGAR - Andreia Mimoso, António Batista, Daniela Serra, Laura Marques e Luana Felício - Agrupamento de Escolas de Marvão

 

     

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